RUÍNAS ALADAS

Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.



Domingo, Julho 31, 2005

AT NIGHT, IN MY HOUSE (MUSIC)

Aqui, neste instante, me dissipo.
Danço para minha sombra,
projetada na parede solitária
por feixes de cores múltiplas.

Pulso, num impulso transtornado.
Eu, meu corpo, meu sexo.
Cada segundo paralisando,
e retornando à vida mínima.

Continuo meu desejo de descoberta,
meu segredo e meu mistério.
Sigo as sombras paralíticas
e acordo nu e descalço.

Eu,
meu corpo,
meu sexo,
nesta noite vazia.

Você,
em algum lugar,
talvez.

(L. F. Calaça | 31/07/2005)

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Sexta-feira, Julho 29, 2005

GESTALT-TERAPIA: UM PARADÍGMA "ATEÓRICO"
- DIVERGÊNCIAS COM A PSICANÁLISE


Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Em nossa última reunião discutimos, dentre outras coisas, a questão da ruptura entre Perls e a Psicanálise e as distinções entre a abordagem gestáltica e a psicanalítica. Durante essa discussão, Bruno levantou a idéia de que um gestalt-terapeuta jamais indicaria um paciente o tratamento com um psicanalista, fundamentando este argumento no fato de a gestalt-terapia ter surgido em oposição ao método e à teoria psicanalítica ortodoxa de Freud. Inicialmente, tomarei como base a concepção ateórica de Perls, para desenvolver uma argumentação sobre o assunto.
Podemos dizer, dentre outras coisas, que a oposição entre a Gestalt-terapia e a Psicanálise vem não apenas de incompatibilidades teórico-metodológicas, mas que, inclusive essas incompatibilidades, advêm da desilusão e negação pessoal de Perls a Freud e sua abordagem, o que coincidiu com o rompimento com outros psicanalistas na mesma época, como levanta Ana Maria Kiyan:

(...)Aos poucos, fundamentalmente devido à decepção com Freud e também a seu modo específico de olhar para a vida, Perls passou a uma atuação na qual não cabia mais a prática psicanalítica e seus pressupostos.
(...)Além do rompimento de Perls com a psicanálise, outros rompimentos importantes estavam acontecendo: primeiro Jung, e logo depois Reich (...)
(1)

Como pudemos observar ao longo desses dois primeiros semestres de graduação, há nas ciências, e em destaque na Psicologia, uma tendência de negação do pensamento antecessor e dominante, dando-lhe formas e proporções incoerentes, a fim de fundamentar um argumento ou um modelo explicativo. Podemos ver isso inclusive na própria Psicologia da Gestalt, que tido como "contestador", surge em oposição ao modelo introspectivo e ao método fragmentador e analítico de investigação de Wundt, propondo um outro modelo explicativo para os processos de percepção, tendo como base a perspectiva fenomenológica e o princípio de totalidade de Brentano e Husserl.
Assim, também a Gestalt-terapia surge como que em oposição ao método analítico da psicanálise que, por ser o paradigma dominante na clínica, é de certo modo negado por Perls, que propõe, ao invés de uma imersão no passado e no inconsciente, propõe a presentificação e a experimentação vivencial.
É importante salientar, no entanto, que, como já foi mencionado, essa ruptura deu-se principalmente por uma decepção pessoal de Perls à psicanálise, que, como reação passou a nega-la como método e modelo explicativo. Temos no entanto que por mais de 20 anos Perls foi psicanalista e, como tal, propôs uma revisão da teoria em comunicação realizada na Tchecoslováquia, em 1936, não tendo, no entanto, a recepção esperada pelo grupo de psicanalistas, revisão esta que foi desenvolvida e publicada seis anos depois, sob o título de Ego, Fome e Agressão (2).
Partindo dessa ruptura, Perls propôs uma abordagem ateórica (o que não quer dizer que se trata de uma abordagem sem fundamentação teórica) no sentido de negar qualquer modelo pré-estabelecido, qualquer explicação pré-concebida, para lidar e trabalhar na terapia com as questões do paciente, justamente em oposição ao modelo explicativo da psicanálise, que segundo consta, tenderia a enquadrar os casos clínicos à julgamentos coerentes ao seu corpo teórico. Essa postura seria adequada ao próprio método da gestalt-terapia de valorizar a experimentação existencial, o momento vivencial como forma de possibilitar ao paciente entrar em contato com sua própria realidade, com o momento do agora, desprovido de determinismos ou verdades absolutas, tendo em vista uma concepção de homem mutável e em constante processo de construção de si mesmo. Sobre essa questão, fala Alberto Pereira Filho em seu livro Gestalt e Sonhos, sobre a questão da negação da concepção de inconsciente da psicanálise:

Considero autentica e louvável a tentativa de rompimento com a psicanálise e seus pressupostos teóricos, em especial se levada em conta a imensa contribuição de Perls para o repertório metodológico das psicoterapias. Que uma autonomia metodológica custe o preço de um desabono, de uma desqualificação, porém, parece-me um recurso infeliz, compreensível somente se visto no contexto idiossincrático da história do autor. Uma negação, no sentido filosófico do termo, ou seja, de absorver e ir além, seria mais coerente com uma proposta integradora.(3)

O fato, no entanto, de haver uma negação de Perls à teoria e ao método da psicanálise não significa dizer que deva haver um descrédito dessa abordagem por parte dos gestalt-terapeutas ou dos interessados em se aprofundar nessa abordagem. A própria psicanálise sofreu suas alterações e adaptações aos novos tempos, e em muito ainda serve para compreender o pensamento ocidental na pós-modernidade.
O fato de a perspectiva de trabalho com o paciente ser de uma ou outra forma não invalida a possibilidade do seu progresso na terapia, de trabalhar com suas demandas e de conseguir alcançar uma melhor compreensão do indivíduo. Assim como propõe a própria abordagem gestáltica, a verdade, a compreensão de um fenômeno (no caso a terapia), é subjetiva, é individual e coerente à forma de uma consciência significar e desenvolver uma relação.
Creio que conceber a negação de uma ou outra abordagem, invalidando-a como veículo catalizador de mudanças, é cair numa intransigência que, ao menos para mim, vai de encontro à própria práxis da Gestalt-terapia, que prima pela relação e pelo seu papel de criação e transformação. Acredito que cada método terapêutico, em sua diversidade, tende a ser adequado também a cada indivíduo, com seus valores, sua história e visão de mundo.
Certa vez tive uma discussão com nossas colegas Delma e Marília e levantamos a questão de que até mesmo a ciência, com suas mais diversas vertentes e corpos teóricos, condizem de certa forma com crenças, assim como a religião, a filosofia, a política, dentre outras, pois são formas de ver o mundo, forma de interpretá-lo, de significá-lo, servindo como paradigma para nele se posicionar.
A grande questão existente é que haveria uma tendência de se valorizar mais a ciência que outras formas de saber, sendo esta ciência eminentimente positista, que seria mais "verdadeira" por possibilitar a apresentação de dados "absolutos", fatos exatos e comprovados empiricamente ou por advir de um raciocínio e método de análise minunciosa, rígido, capaz de possibilitar resultados mais efetivos. Temos, no entanto, que toda essa eficácia e verdade depende do referencial de cada pessoa, podendo outras abordagens, que não estritamente científicas, apresentar o mesmo efetividade sobre a vida de uma pessoa, à medida que essa encontra uma identidade, sua integridade, sentir-se contextualizada.
Acredito que o mesmo ocorre em relação às psicoterapias, com suas diversas abordagens, diversas formas de trabalhar a subjetividade, múltiplas possibilidades de descoberta e inclusão do indivíduo no mundo. A grande questão a ser considerada e trabalhada é que cada uma delas tem suas singularidades e precisam ser vistas como perspectivas, como formas distintas e diversas, que são, de significar o mundo. São verdades possíveis, porém nunca absolutas ou incontestáveis. Creio ser necessário o exercício do diálogo, e não o confronto e a intransigência entre cada uma das formas de pensar a realidade. Sei que isso é difícil de ser alcançado, tendo em vista a necessidade que temos de buscar bases sólidas para nossa vida, algo que nos possibilite uma ilusão de segurança e estabilidade.
Isso me faz lembrar uma alegoria de Kafka, intitulado Fábula Curta, em que a personagem, um rato, reflete sobre o mundo, que progressivamente foi se tornando estreito, à medida em que ele corria de encontro a muros, que inicialmente lhe causaram uma sensação de conforto, mas que, progressivamente foram se encontrando, até que só havia à frente uma ratoeira ou como outra única alternativa, voltar atrás, sendo no final devorado por um gato.
Neste conto é possível percebermos, se fizermos uma associação entre os muros e a idéia de paradigmas, que, muitas vezes estes possibilitam delimitar nossa compreensão do mundo, possibilitar um recorte de nossa realidade, a fim de que possamos nos situar de forma mais objetiva. No entanto, dependendo da forma como nos agarramos a esses limites, podem nos limitar, nos restringir, castrando nossas possibilidades de perceber e vivenciar o mundo à nossa volta, as perspectivas e possibilidades diversas que, potencialmente nos aparece, impossibilitando uma visão mais ampla de nossa existência.
É claro que os paradigmas são de certa forma necessários, para nos possibilitar o mínimo de coerência em nossos posicionamentos, tal como as bases que constituem uma filosofia ou uma linha teórica que fundamentam uma abordagem. É preciso, no entanto, termos a lucidez de que nossa percepção do mundo, apesar de objetiva, é particular e pode abarcar dimensões diversas da do outro, não nos cabendo atribuir juízo de valores ao paradigma do outro tomando como parâmetro nossos próprios paradigmas. Possibilitando o contato, e não a sobreposição, entre essas perspectivas através do diálogo, que no caso da práxis psicoterápica, seria a transdisciplinaridade. Essa postura me remete ao relato de nossa professora Lika Queiroz, que disse ter participado de workshops realizados por uma equipe de formação humanista, encabeçada por Carl Rogers, composta por vários profissionais, de várias áreas e vertentes, da psicologia ou não, incluindo um surfista, o que demonstra a possibilidade de construção de um conhecimento através da diversidade, sem que com isso se perca a individualidade e a coerência de cada olhar sobre o mundo.
Admito que essa perspectiva vai muito além do nosso olhar condicionado, e nisso me incluo, mas creio que, se a Gestalt-terapia valoriza a possibilidade do contato e enfatiza a questão da relação, sem desprezar o papel da subjetividade e da verdade do sujeito, certamente, apesar das divergências de caráter teórico metodológico, a negação de uma ou outra abordagem, de um ou outro paradigma, é, ao menos para mim incoerente como postura ética a ser tomada, se levado em conta seus próprios fundamentos.
Bem, essa a minha posição, minha interpretação sobre a questão levantada por nosso colega e companheiro de grupo de estudos, Bruno. Imagino que ainda venhamos a ter muitas divergências, mas acho ser fundamental a possibilidade da discussão, sem que precise, necessariamente chegar a um consenso, posto que, às vezes, o consenso e a mera aceitação, restringe nossas possibilidades de desenvolvimento e comunicação.
Acho sim, que temos que trabalhar nossa tolerância. É difícil, é complicado, é até mesmo um sacrifício, mas é o ponto de partida, talvez, para um paradigma novo. É um ponto fundamental para que a psicologia continue se desenvolvendo como campo de multiplicidade e diversidade.

Salvador, 28/07/2005.

P. S.: Não sei o porquê, mas sinto-me falando que nem nosso antigo professor de Sociologia, Geraldo Ramos. Como as coisas mudam, não?!

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS:
(1) KIYAN, Ana Maria Mezzarana. E a Gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. São Paulo: Editora Altana, 2001, p. 120.
(2) PERLS, Frederick S. Ego, Fome e Agressão. São Paulo: Summus, 2002. p. 9.
(3) LIMA FILHO, Alberto Pereira. Gestalt e sonhos. Goiânia: Dimensão, 1993. p. 36.

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O HIPÓCRITA NÍILISTA

Este vazio é uma merda! Este vazio dos escritores e poetas, quando faltam palavras neste mundo em pedaços. Uma multidão possuída por lapsos, por lacunas e celas. Falta vida nas linhas e entrelinhas. Falta-me vivência, a experiência do agora. Mito da abstração. As palavras não existem realmente. As palavras são tentativas frustradas de sentir. Um escape, uma ilusão, irrealidade. No entanto, ela é vital. A palavra é vital neste mundo volátil, mutável, transitório. Não tenho ideologias. Não tenho verdades. Não tenho esperanças ou utopias. Tenho vazios e mais vazios. Tenho rostos inexistentes. Sentimentos falsos. Pequenos desejos racionais. Neuroses e repetições. Sou interminável. A monotonia é minha matéria prima primordial. Preciso de vida, de sangue e humor! Preciso transgredir leis universais. Não existem mais leis a serem transgredidas. Não existe mais forma ou expressão. Não existe abstração no mundo em ruínas. As ruínas não existem, afinal. Os existencialistas... Nada sei sobre eles. Escrevo para fugir dos compromissos, para sentir dores inexistentes, para poder suicidar sem cortar os pulsos ou estourar os miolos verdadeiramente. A morte me irrita terrivelmente. A loucura talvez fosse minha salvação, mas sou lúcido demais. Essa lucidez é uma merda! Tudo o que está dito aqui são coisas vazias, inúteis. Joguem fora minhas mentiras. Não leiam mais nada! Não leiam as mentiras alheia, crendo serem verdades e desvelamento da realidade presente. Nada existe ou existirá. Somos animais doentes que não assumem sua vulnerabilidade. Odeio meu "papo cabeça". Odeio repetir esses clichês ordinários. Sou submisso a tudo. Vegeto sem sentidos, sem tato, sem olhos, boca, narinas e tímpanos. Danço como um fantoche sempre na eminência de cair, largado pelo ventríloquo, e me despedaçar, desarticulado, no chão imóvel. Acumulando metros de poeira sobre minha cabeça. Sou triste. Escrever isso me causa lágrimas invisíveis nos olhos. Quero que o mundo acabe numa explosão nuclear. E que vire sombra gravada no chão de asfalto. E que os pombos caguem montanhas de fezes verdes sobre minhas impressões desbotadas. Conformei-me com o anonimato. Quero assistir filmes mudos, cheios de cortes bruscos. Quero vomitar meus pulmões numa esquina vazia. Quero ser pobre, pois nada me resta, ou o que me resta é descartável. Minto para mim mesmo, para sentir-me bem com minha falsa melancolia. A vida é este absurdo impenetrável. Vivo para meu fim e isso me significa. Enquanto isso, amontôo estantes com mentiras alheias. Lei algumas. Idolatro minha ignorância. Minto para a humanidade e continuo escrevendo lacunas nas malditas folhas em branco.

(L. F. Calaça | 10/07/2005)



ASSEXUADO

Inscrevo meu erotismo recalcado
em páginas de papel em branco
derramando sangue em coágulos
e o mistério do corpo profano.

Deslizam diante de meus olhos
os meninos nus e as meninas belas.
Grandes olhos perdidos no espaço
face de mimetismos e obliqüidade.

Como uma grande formiga negra
dependurada em um fia de teia
balanço neste instante e neste meio,
num pêndulo estéril de incertezas.

Guardo meus delírios mudos
no grande mito da terra
vagando em emoções e vazios
no silêncio do caos-concreto.

(L. F. Calaça | 04/07/2005)

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Sexta-feira, Julho 22, 2005


A LIBERDADE EM GESTALT-TERAPIA,
O EXISTENCIALISMO, O ABSURDO E O SUICÍDIO


Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Neste momento me proponho a fazer um levantamento de idéias, sob um olhar bem particular, sobre a questão da liberdade, influenciada pelo pensamento existencialista, na Gestalt-Terapia. Para tal fim, tomarei como ponto de partida as discussões travadas durante nossa segunda reunião no grupo de estudos, bem como algumas leituras minhas, que creio, podem ser pertinentes ao assunto.
Ao longo de nossa reunião, debatemos, dentre outros pontos, as diferenças entre a abordagem gestáltica e a psicanalítica (ortodoxa) e behaviorista (metodológico), tendo como base as distinções traçadas por Hugo Elidio, em seu livro "Introdução à Gestalt-terapia", bem como os pressupostos esboçados em "E a Gestalt emerge", de Ana Maria Kiyan. A diferença estabelecida por Elidio se daria principalmente no tipo de paradigma e concepção filosófica por trás dessas abordagens, bem como na relação terapeuta-paciente. Segundo ele, tanto a psicanálise quanto o behaviorismo, com suas devidas singularidades, apresentariam um modelo explicativo, baseado em relações causais, que determinariam segundo um olhar mecanicista de homem, a construção do indivíduo e a manifestação de quadros patológicos.
A Gestalt-terapia se distinguiria dessas abordagens principalmente por apresentar um método de análise descritiva, tendo como base o modelo fenomenológico-existencial, valorando não apenas os fatores influenciadores em um deternimado sintoma ou situação apresentada. Ela Enfatiza, então, a importância da relação e vínculo terapeuta-paciente, como um processo dialógico, sendo lançado um olhar do sujeito como ser dinâmico, mutável e integral, primando-se principalmente pela afirmação da liberdade do sujeito, por sua autonomia e capacidade de auto-regulação e valorização de suas potencialidades.
Para que essas qualidades do sujeito fossem compreendidas, no entanto, seria necessário que se estimulasse a consciência de liberdade do sujeito, que não implica simplesmente na possibilidade de livre ação e expressão, mas na compreensão de que a liberdade implica em responsabilidade sobre si e sobre o mundo. Creio ser esta a idéia apresentada pelo texto, no que diz respeito à questão da liberdade segundo o existencialismo. Vejo, no entanto, a nossa necessidade de aprofundarmos um pouco mais neste ponto, em nossos estudos e discussões, tendo em vista que essa noção é ponto de crítica fundamental das outras abordagens em relação às abordagens humanistas em geral, da qual a Gestalt-terapia também faz parte.
Um dos pontos cruciais talvez no que diz respeito à visão existencial do sujeito seria o fato de trazer para ele a responsabilidade sobre sua própria vida, de sua própria existências, sobre seus atos e as conseqüências deles sobre si e o meio à sua volta. Essa perspectiva aumentaria o caráter de autonomia e auto-gestão do sujeito, que creio ser fundamental, e que vai de encontro à concepção de homem subordinada e dependente a esquemas de controle ou mecanismos inconscientes.
A Gestalt-terapia, acredito eu, não nega a existência desse controle ou dos conteúdos inconscientes, mas apresenta em relação a eles uma visão distinta. Sua concepção de homem prima, fundamentalmente, pela compreensão do sujeito como um todo coerente e relacional, tendo essa relação um caráter dinâmico, seguindo uma ordenação de campo. Segundo esse olhar, as relações se dão sob um modelo dialógico eu-isso ou eu-tu, de mutua significação e de caráter construtivo, em que o contato implicaria em troca de experiências, sem que com isso se perdesse a autonomia do sujeito.
Quanto à questão da liberdade, o tema que proponho como central nesta reflexão, a Gestalt-terapia traz uma concepção própria do existencialismo, segundo a qual a liberdade implica em consciência acerca da responsabilidade sobre si mesmo. Segundo essa visão filosófica, o indivíduo é responsável por sua própria existência no mundo, pela condução de sua vida e pelo caminho por ele percorrido. Daí a importância do papel da escolha. Escolha essa que implica inclusive na ida ou não à terapia e no compromisso de se integrar à relação terapêutica.
Segundo essa visão existencial, o homem não teria mais a ilusão de um suporte ou autoridade, que poderia ser representada por Deus, da sociedade ou do mundo ou das "contingências", que personificados, determinariam e seriam os "culpados" pelos rumos de sua vida. Assim, na impossibilidade de direcionar para um outro as responsabilidades, o homem seria convocado a se posicionar existencialmente, no momento vivencial do agora, não se permitindo evadir-se para o passado ou futuro, como forma de criar ou idealizar perspectivas falsas, ilusões.
Esse olhar existencial traz consigo uma carga e um peso muito grande, para não dizer insuportável, sobre o homem moderno, criando um sentimento de inevitabilidade que me remete, neste momento, aos personagens do escritor tcheco do início do século, Franz Kafka.
Em suas histórias, classificadas por alguns como realismo fantástico, observa-se a construção de personagens condenados a existências transtornadas, imersos em situações labirínticas, sem alternativas aparentes, em que o ser em questão não consegue se desprender de suas prisões, não conseguem fugir de seu destino, o que imprime ao leitor uma sensação de angústia imensa. De modo geral, trata-se de personagens solitárias, em muito desumanizadas, ou zoomorfisadas, imersa numa atmosfera de irrealidade.
A nós, envolvidos em nossos laços sociais e emocionais, entre familiares, amigos e colegas, essa perspectiva existencial ganha tons caricatos, numa configuração verdadeiramente "fantástica", senão absurda.
Percebemos, no entanto, que esse sentimento como que se perpetua na literatura e nas artes ocidental do século XX, quando me remeto, por exemplo, às peças teatrais e narrativas de Samuel Beckett. Nelas, de forma análoga a Kafka, os personagens são imersos na incomunicabilidade, em relações estéreis, marcadas por um forte traço de dependência, umas às outras, perdidas numa linguagem de fluxo verborrágico e caótico (onde se perde a possibilidade de significação), de idéias entrecortadas por longos vazios desesperadores, num tempo-espaço inexistente e imutável.
Em ambos os casos, diante da inevitabilidade, da repetição e da esterilidade da vida, o sentimento, que muitas vezes se manifesta após a leitura desta literatura, e que pessoalmente me desperta atenção, é a de morte. A morte, que em situações de tão poucas, ou nenhuma, perspectivas, ganha um sentido mais alentador neste mundo de desassossego, mais certo e definitivo, em contraste ao caos e incerteza.
O que me faz remeter a estes escritores é, não apenas a perspectiva fatalista da existência que, de algum modo a filosofia existencialista desperta, mas um dado levantado durante as discussões do grupo de estudo.
Enquanto discutíamos sobre a questão da liberdade e do existencialismo, meio a tantos outros pontos de texto do texto de Elidio, Andréa, que estava presente, comentou haver em Salvador um grande índice de suicídio, fato este que seria sufocado pela imprensa, provavelmente para evitar que se desfaça a imagem construída de "terra da felicidade, da alegria e do Carnaval". Pensando sobre isso, fiz essa conexão, não apenas com os autores mencionados, que expressam o sentimento de vazio e angústia próprio da (pós-)modernidade, mas também a do filósofo Albert Camus, autor do qual li apenas o seu livro de estréia "O Avesso e o Direito", mas que desde esta obra traz justamente esse sentimento de contradição, ao retratar a pobreza social em oposição às manhãs ensolaradas na Argélia e, principalmente, ao enfocar sobre a inevitabilidade da morte.
Neste ponto, observamos a morte constituída como a única certeza, o único elemento imutável, o ponto absoluto da existência humana, embora impossível de ser determinado precisamente em sua temporalidade. Nesta óptica, a morte representaria o limite da vida, a fronteiras da existência e o seu foco possível no tempo agora, imprimindo a necessidade do estabelecimento do sujeito no momento vivencial, como única possibilidade aparente de fazer-se significativo.
Agora, aonde configura a questão do suicídio? Creio que justamente como forma de, diante das incertezas, do caos e do absurdo, se alcançar uma certeza objetiva, uma segurança e clareza da própria existência através de seu ponto ápice e final. Levanto isso sob um olhar absolutamente particular, numa leitura que creio ser possível, sobre a questão do existencialismo, mas tenho consciência da necessidade de me aprofundar através de outras leituras mais objetivas. Este artigo-relato tem, no entanto, apenas a pretensão de levantar pontos de vista e interpretações pessoais.
Uma visão explicativa sobre a questão do suicídio buscaria levantar algumas causas que seriam responsáveis pelo ato em si, talvez o sentimento de vazio, talvez a incomunicabilidade, a perda de entes queridos, do emprego, ou ainda um quadro psicopatológico que, por si só, já teriam causas diversas. Vejo no entanto o suicídio como um posicionamento existencial, uma forma de posicionar-se diante da vida, do mundo e da própria existência. Não digo isso no sentido de pregar uma apologia ao suicídio, mas concebo tratar-se de uma posição existencial tanto quanto a ida ao terapeuta a fim de buscar uma compreensão desse sentimento de angústia e morte. A própria fuga, como podemos encarar às vezes, de fora, o suicídio, é um escolha existencial, o uso da liberdade sobre a própria vida. A alienação, de certo modo, tende a ser uma posição existencial, consciente ou não, mas coerente, creio eu ao próprio estagio existencial de cada indivíduo.
No caso da terapia, em destaque a Gestalt-terapia, está teria como fogo despertar justamente esse olhar vivencial, essa consciência e essa coerência no indivíduo, possibilitando vivenciar suas emoções, significar seu mundo e posicionar-se. Se diante da idéia do suicídio, creio que buscaria fazer o eu em questão significar esse desejo, trazer os elementos que se manifestam como necessidade, reconectar o individuo ao mundo, às suas relações afetivas, possibilitando que este abra o leque de possibilidades, de experiências e expressões possíveis.
Creio ser vital a abertura que a abordagem gestáltica possibilita ao indivíduo, ao abarcá-lo como totalidade e como consciência de si mesmo, como ser de experiência e expressão, capaz de escolhas e, principalmente, construção de si mesmo, de sua vida, que eternamente é uma perspectiva, um vir-a-ser. Tenho que admitir meu desconforto pessoal em relação à idéia de ser resultado ou expressão unicamente de um mundo externo ou de um inconsciente psíquico. Acredito na minha posição de integrante um uma sociedade, de uma cultura, de um todo maior, mas também me vejo como agente nessa construção pessoal, mesmo que sem ter um projeto pré-estabelecido (mesmo porque essa projeção seria uma ilusão), mas como um complexo processo de escolhas, de pequenos passos, de diálogos com os outros, com as palavras, com os sentimentos e com minhas próprias limitações.
Admito aqui não sentir-me livre nem autônomo, mas ao menos essa perspectiva já traz uma visão menos pessimista que, de modo geral tenho da vida. Aqui como que faço uma confidência. Sinto que ainda estou muito distante de alcançar o olhar pleno e existencial, de exaltação e afirmação das potencialidades do indivíduo, mas o simples fato de fazer parte desse grupo representa para mim uma escolha existencial, um primeiro passo, que espero possa mobilizar muitos outros, para além do labirinto, do silêncio e do absurdo.


Salvador, 21/07/2005.

PS.: Gostaria de ter abordado muitos outros pontos, mais as idéias tralharam um rumo imprevisível. Mas convenhamos dizer, a previsibilidade é absolutamente frustrante.

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Domingo, Julho 17, 2005

MANIFESTO EXPRESSIONISTA E GESTALT-TERAPIA,
O(S) VAZIO(S), O(S) NADA(S) E O POETA


Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior.


Escrevo esse breve artigo (se é que se trata de um artigo, ou não um relato pessoal) como primeiro produto, ainda prematuro, do nosso grupo de estudos em Gestalt-Terapia. Creio que os pontos tratados por mim, neste momento, serão mais impressões pessoais sobre temas diversos, que propriamente sobre a abordagem de Perls. Assim, não busco, ao menos agora, me aprofundar muito nos pressupostos ou na introdução do nosso objeto de estudo, mas tecer comentários paralelos, que talvez venham a coincidir ou difira de todo do olhar gestaltico. Em todo o caso, vamos lá.
No nossa primeira reunião, realizada dia 13 de julho, trouxe para o grupo o manifesto expressionista alemão de Kasimir Edschmid, de 1918, que tinha como título "Expressionismo na Poesia". Seus dois primeiros parágrafos, que foram os que mais me chamou atenção, eu reproduzo abaixo:

A terra é uma paisagem imensa que Deus nos deu. Temos que olhar para ela de tal modo que ela chegue a nós sem deformação. Ninguém duvida de que a essência das coisas não seja a sua realidade exterior. A realidade tem que ser criada por nós. A significação do assunto deve ser sentida. Os fatos acreditados, imaginados, anotados não são o suficiente; ao contrário, a imagem do mundo tem que ser espelhada puramente e não falsificada. Mas isso está apenas dentro de nós mesmos.
Assim o universo total do artista expressionista torna-se visão. Ele não vê, mas percebe. Ele não descreve, acumula vivências. Ele não reproduz, ele estrutura (gestalted). Ele não colhe, ele procura. Agora não existe mais a cadeia dos fatos: fábricas, casas, doença, prostitutas, gritaria e fome. Agora existe a visão disso. Os fatos têm significado somente até o ponto em que a mão do artista o atravessa para agarrar o que se encontra além deles. (...)(1)
[grifos meus]

O motivo que me levou a trazer esse texto, foi a palestra proferida no dia 25 de maio, pelo gestalt-terapeuta Afonso Henrique da Fonseca, sobre "Atualidade da Gestalt-Terapia", em que ele trazia os principais fundamentos da abordagem de Perls, incluindo a o expressionismo alemão, tendo em vista tratar-se do movimento intelectual e boêmia do qual Fritz tomou parte após a 1ª Guerra Mundial.
Afonso, na referida palestra, caracterizou Expressionismo pela "valorização da subjetividade do indivíduo, não voltada para a representação da realidade, mas a vivência da criatividade, da inspiração e da expressão"(2). Ele também qualificou a Gestalt-Terapia como uma abordagem expressiva e experimental, não no sentido do experimentalismo científico dos primórdios da Psicologia, mas no de "expressão voltada para o novo".
Na época da palestra ainda não tínhamos entrado muito a fundo nos conceitos nem nas perspectivas da prática gestalt-terapeutica, mas a possibilidade de conciliar psicologia e arte, como uma forma de inovar, de criar e vivenciar uma realidade subjetiva, numa prática que fosse além de aplicação de uma teoria pré-estabelecida e modeladora, verdadeiramente me encantou e deu novo incentivo para eu permanecer no curso de Psicologia, tendo em vista minha grande inclinação para Letras.
Bem, voltando ao manisfesto expressionista de Kasimir Edschmid, podemos ver termos como essência, significação, percepção (percebe), acumulo de vivências e estrutura (gestalted). Eles remetem a conceitos principalmente da fenomenologia (essência, significação) e da Psicologia da Gestalt (percepção, estrutura), mas contextualizados, nas víceras do textos, percebemos que vai muito além da simples apropriação de conceitos.
Quando lemos no manifesto, por exemplo, que "Ninguém duvida de que a essência das coisas não seja a sua realidade exterior. A realidade tem que ser criada por nós. A significação do assunto deve ser sentida.", nos deparamos com a realidade como fruto da relação entre o sujeito e o mundo, uma relação sensório-afetiva, vivencial, em que a realidade é a realidade para uma consciência, que a experimenta e a significa, tal qual propõe a fenomenologia. Da mesma forma como ao dizer que "Ele não vê, mas percebe. Ele não descreve, acumula vivências. Ele não reproduz, ele estrutura (gestalted)", podemos inferir, eu acho, uma relação com a Psicologia da Gestalt, sobre o processo de percepção através da vivência e da experiência da realidade, que se estrutura na boa forma, através de diversos mecanismos como o de figura-fundo, em que o mundo não é reproduzido, mas é estruturado pelo sujeito, e vivenciado por ele, no campo da consciência, em sua subjetividade-objetiva.
Bem, não vou me estender muito em terreno que não domino. O que mais me impressionou, como já disse, foi a possibilidade de conexão entre a arte e a psicologia, entre um tratado estético e conceitos científicos da psicologia e da filosofia. Mas, antes de tudo, a idéia de vivência e experimentação, em que "Os fatos têm significado somente até o ponto em que a mão do artista o atravessa para agarrar o que se encontra além deles." Em que a realidade do sujeito só é alcançada por ele mesmo, no momento em que vivencia sua realidade, e vai além do mundo objetivo, em que significa e ressignifica, em que "Ele não colhe, ele procura" respostas, caminhos e significados, no mundo do agora, do aqui, e do sensível.
Creio ser importante trazer essa possível ligação entre o Expressionismo e a Gestalt-terapia, por tratar-se de um registro no mínimo interessante o fato de um tratado estético ter antecedido, embora seja contemporâneo à outras influências diretas na vida de Perls, o ideal de vivência e experimentação da subjetividade, proposta muitas décadas depois pela abordagem da Gestalt-terapia.

Outro ponto que gostaria de comentar, agora já me distanciando do possível elo Gestalt-Terapia -- Expressionismo, foi em relação a um dos pressupostos apresentados no livro E a Gestalt emerge, em que a autora, Ana Maria Kiyan, traça a ligação entre a Gestalt-terapia de Perls e a filosofia oriental, em especial no que diz respeito à idéia existencial de nada e vazio. Em fragmento do texto, a autora diz que:

(...) Segundo a Gestalt-terapia, "o nada é um lugar" psíquico fundamental para se estar, dependendo do momento; é nele que o indivíduo pode entrar em contato com a experiência de ser, sendo o que é. É esse ponto zero que acontece o momento de criação, em que qualquer coisa é possível.
Perls freqüentemente referia-se a dois tipos de vazio: o estéril e o fértil, sendo esse segundo tão vazio quanto o primeiro porém configurando-se como terreno fértil para novas possibilidades.
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Durante a nossa primeira reunião ficamos em dúvida sobre o que viria a ser esse nada, se a mesma noção apresentada pela tradição oriental seria a de Perls, e qual o significado para ambos. Tivemos três opiniões:
Bruno, meu colega de semestre e um dos organizadores do nosso grupo de estudos, acreditava (espero não estar distorcendo suas idéias) que o nada teria o sentido de harmonia e equilíbrio, expresso pela tradição oriental zen-budista. Esse lugar talvez fosse o da totalidade, em que não há pensamento racional, mas fusão com o universo. Lugar de silêncio (?), eu imagino, e de serenidade.
Particularmente eu não consigo compreender bem como, ao se alcançar esse estado de vazio, de harmonia, esse ponto zero, haveria a criação. Pergunto-me inclusive qual, ou como, seria essa criação. Eu tenho que admitir minha dificuldade de romper com alguns de meus paradigmas. Terei de me abrir a essa nova perspectiva.
Outra possibilidade para o nada seria quanto à relação vivencial eu-tu, enquanto processo no qual se estabeleceria uma totalidade, onde o nada seria a própria relação, que quando vivência é desprovida de racionalidade, é pura experiência, fenômeno imediato, no aqui e no agora, sendo só possível sua racionalização a posteriori, quando paramos para refletir e dar significação a este momento vivido. A essa possibilidade de interpretação sobre o sentido do vazio e do nada, todos, ou quase todos, de alguma forma compreenderam e concordaram.
A minha opinião, expressa antes do vazio na relação eu-tu, que creio ter sido levantada por Amanda (não sei bem se ela se chamava assim, pois sou péssimo em gravar nomes), estudante do 7º semestre e que faz formação em Gestalt-Terapia com Afonso, é de todo diversa. Geralmente tenho essa "qualidade" de divergir dos outros, mas tudo bem.
A minha interpretação sobre o nada diz respeito ao nada vivido pelo escritor, pelo poeta, trazendo assim o termo para minha realidade. Esse vazio seria o que geralmente se chama de ¿vazio do artista¿, aquele momento de tensão que antecede o momento da concepção, da criação poética, ou seu oposto, o momento após a criação, equivalente, para alguns, ao momento de morte.
Quando penso na vazio antecedente à escrita (ou a qualquer outra expressão artística), me refiro ao instante em que a poesia se faz necessidade, tensão e angústia, marcado principalmente pela faz de palavras, ou de idéias, para expressar um sentimento qualquer, uma emoção enlouquecida, um desejo de vida. Creio tratar-se, não do momento de equilíbrio, mas de seu antônimo, quando o poeta se vê mergulhado numa esterilidade desesperadora, numa ânsia violenta de vida e de concretude, mas é frustrado.
Às vezes, a própria esterilidade torna-se matéria poética, algo que observamos na literatura contemporânea, quando o poeta ou o escritor relata sua impossibilidade de significar o mundo a sua volta, de criar, de viver, meio ao deserto das palavras ou ao caos de mundo e da existência. Particularmente é essa a sensação de vazio que sinto, enquanto poeta, principalmente por achar que a poesia, assim como a terapia, religião, política, etc, para outras pessoas, é o momento meu de encontrar minha existência, de significar minha subjetividade, de sentir-me vivo, de ser e existir como consciência.
Nesta perspectiva, o vazio não é nem o momento de harmonia ou de equilíbrio, nem fruto da relação eu-tu, a não ser que o tu seja o eu, ou a poesia, as palavras, ou a folha de papel, mas, em todo o caso, a sensação é mais de fragmentação que de totalidade.
O outro vazio, seria o período seguinte à concepção poética, quando tudo o que poderia (e não o que se queria) ser dito se tranforma em linhas, letras, palavras, em sentimos a sensação de morte, de anulação, às vezes até de perda, que, paradoxalmente se opõe e se equivale à tensão do vazio estéril antecedente à escrita. Este momento, também, não é o momento de criação, mas de reflexão, de julgamento estético do próprio autor sobre a criação, sobre o poema, o texto.
Talvez, e nisso eu acredito, o momento verdadeiramente de equilíbrio, ou de equilibração, de tornar-se vivente e consciente da sua existência, seja o momento em si, o tempo e o lugar da concepção, o agora em que o caos ganha forma, torna-se sensível, é expresso e significado pelo eu que se descobre e se propõe como narrador ou eu-lírico. Creio que é no momento da escrita, seja por inspiração (ou insight), seja por persistência para quebrar o vazio de esterilidade, que eu, poeta e criatura, posso "entrar em contato com a experiência de ser, sendo o que sou".
Assim, não concluo nada, apenas levanto minhas primeiras impressões e idéias, e, talvez, lanço mão de uma possibilidade a mais de discussão. De meu nada, meu vazio, ou de meus nadas e vazios, pouco sei, em correlação com o da Gestalt-Terapia de Perls. O equilíbrio do nada zen é para mim estranho, embora sinta interesse verdadeiro em conhecer como filosofia e fundamento do objeto que me proponho, no grupo de estudo, a compreender e aprimorar.
Aqui fico, nesse artigo-relato um pouco maior do que eu queria que fosse, mas sou verborrágico e caótico por excelência.
Espero sinceramente que nosso grupo de estudos se estabeleça e tenhamos bons frutos.

Salvador, 17/07/2005


NOTAS:

1. TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro: apresentação dos principais poemas, manifestos prefácios e conferencias vanguardistas, de 1857 a 1972. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997, p. 111.

2. Minhas anotações da palestra de Afonso Henrique, em 25 de maio de 2005.

3. KIYAN, Ana Maria Mezzarana. E a Gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. São Paulo: Editora Altana, 2001, p. 146.

postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 2:10 PM Comments:



Sábado, Julho 02, 2005

PÁGINA UM

Meus pequenos mistérios incompreensíveis. Deslizo minha inspiração entre o estranhamento, a volúpia e o equilíbrio. Ansioso, devoro parte de minhas unhas, sem que, no entanto, sangre. A dor me incomoda, apesar de necessária e vital. Meus cabelos negros artificialmente deslizam sobre meus olhos, passando pelo meu nariz causando uma sensação de cócegas. A cada instante, mais fios se desprendem, como formar uma cortina tingida, de nylon. Finos fios arrastados pelo vento cíclico do ventilador pequeno, amarrado com fios de cordão para não cair no chão e quebrar. Desde o início percebi em minha caligrafia desenhada e pretensiosa... Um rebuscamento inútil, já que tudo se transformará em letras padronizadas Times New Roman, que talvez alguém leia, ou não, ou se esqueça logo depois, como se não tivesse sentido, senão para mim. Creio que falo, na verdade, para mim mesmo, como uma confissão abafada, deixando-me absolver pelo desejo de ser poeta ou prosador sem sê-lo, no entanto. Nada além de uma criatura pretensiosa que finge, que derrama idéias que surgem sem amarras, como que possuído por um fluxo louco e inconsciente de lirismo e inspiração. Inspiro apenas um ar, comum a todos, comum aos pretéritos e adjacentes. Não importa realmente o que veio, foi ou virá. Realmente importa?! As coisas se sucedem, me perseguem neste pensamento surdo e incomodo. Continuo neste quarto. Sentado de pernas cruzadas neste chão de azulejo branco (antes alaranjado), com um lápis para desenho que uso para escrever. Talvez por riscar mais forte e legível. Talvez por borrar com o tempo, tornando amorfa e incomoda a leitura suja de pó de grafite. Seja por eu desejar ser um artista, delinear formas, sem saber ou conseguir. Pensei em escritores como Thomas Mann (o equilíbrio apolíneo desassossegado), ou Oscar Wilde, sem definições. Pensei nas flores mortas, nas tardes frias, no Sol distante. Não posso tocar o horizonte. Não posso ver o corpo que vagueia. Não posso poder coisa alguma apenas através de palavras, cada vez mais vazias. Cada vez mais vazio. Copio linhas indefinidamente. Preencho páginas em branco, como que para preencher meus espaços nulos. Autobiógrafo meus momentos, ficcionalizando coisas mínimas. Derramo o ordinário, que se transforma cada vez mais em brilhante, pretensiosamente. Sou coisa alguma. Sou desenho de carbono.

(L. F. Calaça | 24/06/2005)

postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 7:24 PM Comments:




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